segunda-feira, 16 de outubro de 2017

NO DIA EM QUE TE FOSTE...


No dia em que te foste, como um alucinado, corri quilómetros para ver com os meus olhos, aquilo que não acreditava.
No dia em que te foste, atravessei este país, que tanto amavas, para te ver e despedir-me uma última vez. Cruzei distâncias imensas de matas queimadas, como se o mundo se tivesse tornado um gigantesco cemitério de árvores negras. Ainda bem que já não o viste, para que não se enegrecesse também o teu coração.

No dia em que te foste, a raiva ferveu em meu peito e as lágrimas explodiram em meus olhos. Não saíam as palavras que eu queria e o amor dos que te queriam sufocava-me e doía-me... porque te foste e nos deixaste.
No dia em que te foste, o sol brilhava com força sobre as tuas saudosas planícies alentejanas e os pássaros chilreavam alegremente nas copas das das azinheiras. Saberiam eles que nos deixaste? Saberiam os pássaros e o sol, que te foste desta vida de sofrimento? Não deveria o sol fazer luto e os pássaros silêncio?
No dia em que te foste, visitei mentalmente todos os locais que amavas e contigo recordei as verdes vinhas do Douro, as abrasadoras planuras do Alentejo e os lânguidos braços da ria de Aveiro e senti que agora estavas livre. A tua alma forte e indómita, estava finalmente despojada do involucro, que te serviu bem por muitos anos, mas agora gasto e doente. Grande como o mundo, tua alma se expandiu sobre tudo o que amavas, para derramar bocadinhos do teu ser.

No dia em que te foste, vi no teu rosto sereno, que partiste em paz e não havia mágoa nem dor em teu coração, apenas a certeza que caminhaste para algo superior a todos nós, onde não há lugar para esses sentimentos.
No dia em que te foste, o tudo parecia igual ao dia anterior... mas tão pobre que ficou o meu mundo...

Este texto foi escrito pelo meu filho Manuel Amaro    Em  24 de Agosto de 2017.

NÃO HÁ UM ADEUS.

                             

A verdade é que não há um adeus.

Não adianta despedir-mo-nos vezes sem fim, como se fosse a última. Pensar em ti, como se nunca mais te víssemos, ou ouvíssemos falar de ti.
O adeus não se fica para lá da tampa do ataúde com que te velaram o rosto e te ocultaram dos meus olhos.

O adeus não está sequer naqueles instantes solitários, em que nos tornamos a despedir uma e outra vez, enquanto sofremos o remorso das vezes que não disse que te amava, ainda que o pudesses ver nos meus olhos.

O adeus está na caminhada para o infinito que empreendeste, deixando-nos a todos órfãos e desorientados. No vazio que deixaste, na ausência pesada que agora mora connosco.  

O adeus está em cada pequeno momento que a tua memória me afaga, no toque de cada objeto que sei tocado por ti, pelo manusear dos livros que leste e em cada memória das conversas que tivemos sobre ele.

O adeus está em cada paisagem que aprecio e sei que ias amar, em cada maravilha da engenharia que vejo e sei que ias admirar.
O adeus está neste mundo cruel que não se compadece e, mesmo sem ti, continua a desfiar a sua rotina, dia após dia.

Não, o adeus não ficou encerrado na caixa de madeira que te levou, quando me perguntaram se me queria despedir.
Porque a verdade, é que não há um adeus, mas sim milhares deles que se estenderão pelo resto da vida.

Este texto foi escrito pelo Manuel Amaro meu filho em 8 de Setembro de 2017